unidade dissonante

comentário sobre a música “Images” de Oliver Nelson do álbum Straight Ahead de Oliver Nelson & Eric Dolphy (Selo Prestige).

por Marcelo S. Petraglia

Uma despretensiosa linha de baixo chega mansa, passo a passo, abrindo caminho numa monótona tarde ensolarada de verão. Arrasta consigo uma levada suave nos pratos da bateria, que parece mais buscar a sombra na encosta de paredes desbotadas. Eis que surge, reticente, um personagem, numa melodia borrada por segundas e nonas menores paralelas; dois amigos que caminham juntos mas se negam a ser um só. Sua fala conjunta é antes de tudo um timbre que vem carregado de blues, melancolia e negação de tudo que seria o óbvio. A música se abre. E cada um nela derrama sua alma.

A imagem acima pode bem ser diferente daquela que inspirou esta composição intrigante do saxofonista e arranjador Oliver Nelson, mas serve para colocar o ouvinte dentro da cena na qual Nelson e o iconoclasta, multi instrumentista, também compositor Eric Dolphy se encontram. Um cria uma imagem (Images), o outro, o iconoclasta, corrói a imagem. O atrito entre os dois não é desrespeito, mas tensão criativa.

O álbum Straight Ahead, gravado em 1o Março de 1961, é o terceiro e último trabalho conjunto dos dois músicos (o primeiro foi Screamin’ the Blues de 1960 e o segundo Blues and the Abstract Truth gravado apenas uma semana antes em 23 de Fevereiro de 1961). As peças do álbum foram todas gravadas “de primeira” em poucas horas, de onde se infere o alto grau de intimidade que os músicos tinham alcançado ao longo de sua trajetória conjunta. Ao mesmo tempo é surpreendente ouvir o quanto cada um tem sua identidade preservada e faz uso da mesma para criar os contrastes e matizes tão fundamentais à uma boa obra de arte. Nelson tem um consistente e caloroso som de saxofone e pode-se ouvir em seus tons, frases e composições, a tradição do blues que formou sua linguagem. Suas linhas são firmes, claras e precisas, mesmo quando ele ousa na sinuosidade de gestos melódicos que por vezes nos remetem a um expressionismo quase atonal. Na melodia tema de “Images”, seguindo os intervalos introdutórios tipicamente blues, ele se lança em arcos sequenciados que modulam até o ponto culminante do tema. Seu movimento é harmônica e melodicamente totalmente controlado, mas, longe de ser rígido, é um controle que busca a medida certa, o tom exato do equilíbrio entre a surpresa e o estilisticamente possível. Ele é o primeiro a solar. Um solo curto, mais relaxado, mas sem perder a precisão e a sofisticação.

Em seguida vem Dolphy com seu clarinete baixo. Dolphy é Dolphy! Quem já o ouviu reconhece imediatamente sua voz. O apoio grave, as frases nervosas, a busca inquieta de novos caminhos e o toque áspero visceral de suas palhetas. Seu solo também é breve e leva a pensar que tudo nesta “Images” é casual e acontece na cadência perpétua de um passo suave jazz-blue.

Não se pode esquecer que a originalidade dos traçados melódicos dos dois sopros ganha seu destaque e encanto por conta do total suporte do baixista George Duvivier, do baterista Roy Haynes e do pianista Richard Wyands. Todos os três altamente sensíveis e integrados ao projeto musical peculiar de Nelson e Dolphy. Cabe ao piano de Wyands fechar os solos com uma leve fleuma. Contemporiza, acolhe e harmoniza a fala dos colegas, preparando a volta do tema bitonal.

E lá esta a “Images” novamente, misteriosa, una e dual. Poderia ser um dia quente numa rua morosa, mas talvez seja simplesmente uma melodia que preferiu se dilatar, ser um espaço de tensão e liberdade entre dois notáveis mestres da música jazz.

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