o tom ré

Entre meus amigos e alunos é conhecida a predileção que eu tenho pelo tom Ré. Compus varias músicas que o tem como centro tonal, muitos de meus instrumentos também o utilizam como base e, sobretudo, a afinação da Mesa Lira foi definida em Ré. Para que isso tenha ocorrido, muitos fatores convergiram e cabe, se não uma explicação, pelo menos a apresentação das razões e considerações que levaram a tal percepção, entendimento e ação.

Nossa estrutura de tons é derivada de um sequenciamento de 5as, que tem na sua essência a razão 2:3 (passaremos aqui ao largo do mérito da diferença entre uma afinação pura – pitagórica – versus uma afinação temperada por igual batimento. Isso pode ser estudado em outros textos, inclusive no meu livro “A música e sua relação com o ser humano”*). Quando seguimos ascendentemente de 5a em 5a experienciamos naturalmente um gesto anímico de abertura. O movimento melódico de Dó à Sol, por exemplo, é um afastamento de si em direção à um patamar de maior luminosidade e energia. Lançamos ao mundo um chamado e sentimo-nos como que na periferia do nosso ser. Esta experiência podeira ser equivalente à seguinte imagem: “abrir uma janela para um belo dia de sol e contemplar a paisagem”. Já o movimento de 5a descendente Sol > Dó, tem uma qualidade oposta: “a janela se fecha e me recolho em casa”. Retorno a mim mesmo, volto ao meu centro interior de estabilidade.

Quando sequenciamos (“empilhamos”) 5as e seguimos sua ascensão, vivenciamos sucessivamente patamares cada vez mais elevados de luz e abertura (Fá>Dó>Sol>Ré>Lá….) . Quando se desce nesta sequência (Si>Mi>Lá>Ré>Sol….) Intensifica-se o processo de interiorização; poder-se-ia também falar em “densificação” ou “escurecimento”.

Partindo destas considerações (que de fato só podem ser validadas pela vivência), vê-se que, tomando o âmbito dos tons naturais (Fá – Dó – Sol – Ré – Lá – Mi – Mi – Si) o tom Ré encontra-se exatamente no meio entre estas duas tendências.

Continuando na sequência de 5as para além do Si iniciamos o fluxo dos sustenidos, com Fá#, Dó#, Sol#… Para baixo do Fá iniciamos o fluxo dos bemóis com Sib, Mib, Láb… Ou seja, adentramos regiões e qualidades tonais cada vez mais extremadas e distantes do ponto de equilíbrio.

Não é a toa que o modo Dórico que se apresenta entre um Ré e sua oitava e tem o Ré como eixo, é um modo absolutamente simétrico, tendo não só o primeiro e o segundo tetracordes iguais, mas onde cada tetracorde é em si simétrico. É por conseguinte o único, dos modos medievais, que é um espelho de si mesmo, entre e inter tetracordes, sobe e desce com os mesmos intervalos. Não é difícil compreender por que o modo Dórico se tornou o modo eleito do canto gregoriano na sua tarefa de dar experiência musical ao impulso crístico.

Ao sobrepor estas qualidades tonais aos elementos sutis da nossa constituição, tais como os nossos centros energéticos vitais (os Chakras), é natural que este alinhamento se dê relacionando o Ré ao chakra cardíaco, nosso centro de equilíbrio anímico e fisiológico. É no coração que os fluxos venoso e arterial se entrelaçam e se compensam e onde a força anímica do amor incondicional (Ágape) pode nascer.

Dito isso, é importante que se considere ainda o seguinte:

1) em nenhum momento tratou-se a questão sob o ponto de vista de frequências, mas sim de tons. Frequências são mutáveis (o Lá já foi muito mais alto e muito mais baixo do que é hoje – em torno a 440Hz.**). Os tons são entes relacionais que se definem na relação que estabelecem uns com os outros e portanto são fenômenos puramente musicais supra físicos (para aqueles que tiverem interesse nesta dimensão do fenômeno musical, recomendo enfaticamente a leitura da obra de Victor Zuckerkandl*** em especial o livro Sound and Symbol.

2) Mais dos que os pensamentos que se possam elaborar sobre a questão dos significados tonais, a experiência será sempre a derradeira juíza e indicadora da realidade de tais fenômenos. Portanto, ouça, observe e julgue por você mesmo.


* PETRAGLIA, M. S. A música e sua relação com o ser humano. Botucatu: OuvirAtivo, 2010.
** ELLIS, A. J.. The history of musical pitch in europe: in HELMHOLTZ, H. On the sensation of tone. New York, Dover Publications, p.493-513, 1954.
*** ZUCKERKANDL, V. Sound and symbol. Princeton: Princeton University Press, 1973.

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