{"id":1013,"date":"2021-04-27T13:52:26","date_gmt":"2021-04-27T13:52:26","guid":{"rendered":"https:\/\/marcelopetraglia.com.br\/?p=1013"},"modified":"2024-05-16T01:54:30","modified_gmt":"2024-05-16T01:54:30","slug":"a-pausa-na-musica-e-na-vida-suas-muitas-qualidades","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/marcelopetraglia.com.br\/?p=1013","title":{"rendered":"a pausa na m\u00fasica e na vida: suas muitas qualidades"},"content":{"rendered":"<p>Marcelo S. Petraglia<\/p>\n<p>Este texto se baseia na transcri\u00e7\u00e3o de duas <em>lives<\/em> realizadas nos dias 8 e 23 de junho 2020, em meio a pandemia do Covid-19, organizadas respectivamente pelo EcoSocial e pela Faculdade Rudolf Steiner &#8211; S\u00e3o Paulo \u2013 Brasil<\/p>\n<p>Vers\u00e3o em <a href=\"https:\/\/www.marcelopetraglia.com.br\/mp_tx\/petraglia_pausa_PT_210427.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">PDF<\/a><br \/>\nEnglish version <a href=\"http:\/\/www.marcelopetraglia.com.br\/mp_tx\/petraglia_pause_EN_210618.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">PDF<\/a><\/p>\n<p><em>Na m\u00fasica, som e o silencio se intercalam e se interpenetram. Conforme a rela\u00e7\u00e3o que estabelecem entre si, diversas qualidades e significados podem emergir. Observar esta din\u00e2mica pode levar a descobertas interessantes sobre o significado dos sil\u00eancios e pausas tamb\u00e9m em nossas vidas. Como e quando acontecem? Que qualidades podem ter? Como nos relacionamos animicamente com elas e aproveitamos suas mensagens e oportunidades? Escutemos&#8230;<\/em><\/p>\n<p>Boa noite a todas e todos. A ideia dessa nossa conversa \u00e9 olhar para o elemento da \u201cpausa\u201d, ver como ela acontece no contexto musical e a partir da\u00ed fazer algumas considera\u00e7\u00f5es em rela\u00e7\u00e3o ao momento que vivemos.<\/p>\n<p>Para falar sobre m\u00fasica, acho importante come\u00e7ar mencionando que ouvir m\u00fasica \u00e9 diferente de ouvir outros sons. Nossa escuta funciona de um modo bastante peculiar quando estamos diante de um fen\u00f4meno musical. Pode-se exemplificar isso da seguinte maneira: quando se escuta qualquer som, um ruido na casa, no carro, na rua, na natureza ou em qualquer outro lugar, a pergunta mais comum que surge em n\u00f3s \u00e9: o que produziu esse som? Buscamos, em verdade, sempre a fonte sonora. \u00c9 o som do vento, \u00e9 o som do mar, o som da chuva, do rio, das folhas, dos animais, o barulho de uma m\u00e1quina, de um objetos da casa, etc.. Seja l\u00e1 o que for \u00e9 sempre som \u201cde\u201d alguma coisa. No instante em que identificamos a fonte sonora e damos o seu nome, respondemos \u00e0 esta pergunta, muitas vezes inquietante, que nos invade. Esta resposta \u00e9 importante, pois nos orientamos no espa\u00e7o pelo som das coisas, colhemos informa\u00e7\u00f5es sobre o mundo por meio dos sons. Poder identificar os diversos sons faz parte do nosso instinto de sobreviv\u00eancia. Um som pode significar comida, \u00e1gua, perigo, um chamado, etc. Neste sentido, compartilhamos com os animais esta dimens\u00e3o da escuta.<\/p>\n<p>J\u00e1 a escuta musical \u00e9 algo diferente. Intuitivamente n\u00e3o buscamos a fonte sonora, mas sim procuramos saber \u201cque musica \u00e9 esta?\u201d Neste sentido nossa escuta n\u00e3o est\u00e1 buscando coisas, objetos ou algo externo para al\u00e9m dos tons, mas a identidade manifesta nas rela\u00e7\u00f5es dos tons entre si e seu significado musical. Na ess\u00eancia temos apenas 12 tons (pense nas sete teclas brancas e cinco teclas pretas de um piano), que s\u00e3o replicados algumas oitavas acima e abaixo no \u00e2mbito da nossa escuta. S\u00e3o nas configura\u00e7\u00f5es e rela\u00e7\u00f5es particulares destes tons que se percebe uma identidade musical, uma melodia, uma sequ\u00eancia de acordes e mesmo um padr\u00e3o r\u00edtmico. Esta configura\u00e7\u00e3o recebe um nome, seja uma can\u00e7\u00e3o ou pe\u00e7a instrumental. Mesmo quando est\u00e1 sendo tocada por um instrumento diferente ou tocada um pouco mais r\u00e1pida, um pouco mais lenta, mais aguda ou mais grave; se as rela\u00e7\u00f5es proporcionais entre os tons e as dura\u00e7\u00f5es dos mesmos forem mantidas, reconheceremos como sendo a mesma m\u00fasica (mesmo que nem saibamos de fato seu nome). N\u00e3o se pode ignorar que as varia\u00e7\u00f5es de instrumento (timbre), intensidade (forte ou piano), se ela est\u00e1 num registro agudo ou grave e mesmo o andamento (r\u00e1pido ou lento), t\u00eam um impacto na percep\u00e7\u00e3o subjetiva do ouvinte; j\u00e1 que estes elementos s\u00e3o qualificadores importantes da experi\u00eancia musical. Uma mesma melodia tocada num violino ou num trombone com certeza soa diferente e pode afetar a recep\u00e7\u00e3o do ouvinte. Mas, numa camada mais essencial, desde que mantida a proporcionalidade de suas rela\u00e7\u00f5es tonais e r\u00edtmicas, nenhuma destas vers\u00f5es t\u00eam o poder de transformar esta m\u00fasica e uma outra musica, mudar sua identidade.<\/p>\n<p>Na verdade isso se d\u00e1 pelo fato de a experi\u00eancia musical ter sua ess\u00eancia n\u00e3o propriamente na dimens\u00e3o ac\u00fastica, mas na rela\u00e7\u00e3o que se estabelece entre os tons, uma rela\u00e7\u00e3o que \u00e9 dada pelo pr\u00f3prio conjunto dos tons e dos ritmos organizados em um sistema, o que n\u00e3o acontece com os demais sons do ambiente. Este sistema \u00e9 algo vivo, gerador de um \u201ccampo de for\u00e7a\u201d criado pelos pr\u00f3prios tons e para os pr\u00f3prios tons expressarem seu significado musical. Cada tom existe como um vetor neste campo, um impulso volitivo que \u201cquer algo\u201d: ele busca uma resolu\u00e7\u00e3o ou gera uma expectativa, se afirma em si mesmo, cria um questionamento, abre uma nova possibilidade, manifesta equil\u00edbrio ou desequil\u00edbrio. Ao longo de uma m\u00fasica o conjunto das configura\u00e7\u00f5es tonais e r\u00edtmicas, geram um fluxo de eventos que passam de estado em estado, numa transforma\u00e7\u00e3o constante. Pode-se observar, por exemplo como um acorde tenso se dissolve em outro ou segue numa intensifica\u00e7\u00e3o da tens\u00e3o; como \u00faltimo acorde de uma m\u00fasica pode resolver (ou n\u00e3o) de forma enf\u00e1tica a narrativa musical que vinha se desenvolvendo. Em paralelo, os v\u00e1rios momentos que v\u00e3o acontecendo ao longo de uma pe\u00e7a, v\u00e3o nos conduzindo subjetivamente a estados an\u00edmicos diversos. Pode-se chamar cada um destes momentos de \u201cestados de for\u00e7a\u201d, um estado emergente com uma caracter\u00edstica peculiar, ativo na rela\u00e7\u00e3o com os momentos que o antecedem e o sucedem; de modo geral e sist\u00eamico, tamb\u00e9m com todos os demais momentos da pe\u00e7a em quest\u00e3o.<\/p>\n<p>Pode acontecer que no meio de uma m\u00fasica, como tamb\u00e9m antes do seu in\u00edcio e ap\u00f3s seu t\u00e9rmino, ocorra aquilo que chamamos de \u201csil\u00eancio\u201d. N\u00e3o se trata aqui de uma aus\u00eancia de fen\u00f4menos ac\u00fasticos, j\u00e1 que isso, em condi\u00e7\u00f5es ambientais normais simplesmente n\u00e3o existe: ru\u00eddos de cadeiras, pessoas tossindo, zumbido de um ar condicionado e outros, fazem parte do ambiente ac\u00fastico de qualquer sala de concerto. O silencio ao qual nos referimos aqui \u00e9 a aus\u00eancia das for\u00e7as tonais e r\u00edtmicas num dado contexto musical. A pausa, neste sentido, n\u00e3o indica a aus\u00eancia de um evento ou est\u00edmulo ac\u00fastico, mas sim a aus\u00eancia, pelo menos no \u00e2mbito exterior, das for\u00e7as que atuam na m\u00fasica; a pausa acontece quando a dimens\u00e3o ac\u00fastica da m\u00fasica cessa e deixa de ser percebida no espa\u00e7o \u2013 mas restam suas for\u00e7as.<\/p>\n<p>O que acontece, como veremos mais adiante, \u00e9 que justamente aquilo que desaparece para ouvido como dado exterior, ecoa em nosso interior. A pausa na m\u00fasica leva ent\u00e3o a uma invers\u00e3o da dire\u00e7\u00e3o da nossa aten\u00e7\u00e3o. Paramos de ouvir fora e come\u00e7amos a ouvir dentro. Nota-se ademais, que a qualidade daquilo que surge em nosso interior est\u00e1 impregnado pelos estados de for\u00e7a da m\u00fasica que se manifestou at\u00e9 aquele momento; bem como pelo, por incr\u00edvel que pare\u00e7a, que se seguir\u00e1. O importante ent\u00e3o quando se fala da pausa na m\u00fasica, \u00e9 perceber e caracterizar a qualidade destes estados de for\u00e7a enquanto contraparte silenciosa da m\u00fasica; e como estes reverberam em nosso interior.<\/p>\n<p>Para exemplificar este ponto de vista, vamos agora ouvir quatro pequenos trechos de pe\u00e7as musicais contendo pausas e tentar caracterizar suas qualidades. Recomendo que posteriormente se ou\u00e7a as obras na integra a fim de que se possa experienciar a qualidade das pausas no seu contexto maior.<\/p>\n<p>Come\u00e7aremos pela \u201cAbertura\u201d da \u00f3pera \u201cA flauta M\u00e1gica\u201d de W. A. Mozart<\/p>\n<p>Temos logo de in\u00edcio e depois novamente no meio da pe\u00e7a tr\u00eas grande acordes da orquestra entremeados por pausas.<\/p>\n<p>Exemplo 1<\/p>\n<p>W. A. Mozart \u2013 A flauta m\u00e1gica \u2013 Abertura (trecho)<\/p>\n<p><a class=\"wpaudio\" href=\"http:\/\/www.marcelopetraglia.com.br\/mp_audio\/ex1_Mozart_flauta-magica_abertura.mp3\">W. A. Mozart \u2013 A flauta m\u00e1gica \u2013 Abertura<\/a><\/p>\n<p>Como se pode observar, temos esses acordes justapostos \u00e0 pausas. Tratando-se da abertura de uma \u00f3pera, pode-se logo perguntar: qual o significado desta altern\u00e2ncia, som silencio, som, sil\u00eancio, som, sil\u00eancio, e a m\u00fasica que segue? Considerando os dois momentos onde se tem os blocos de acordes com suas pausas, v\u00ea-se que o que segue ao primeiro bloco tem um certo car\u00e1cter de anuncia\u00e7\u00e3o: pode-se falar em \u201cexpectativa\u201d, \u201cabertura de um portal\u201d, que \u00e9 gentilmente seguido por um movimento em tonalidade maior at\u00e9 a entrada do tema principal que \u00e9 desenvolvido em forma de fuga. J\u00e1 a segunda apari\u00e7\u00e3o v\u00eam depois de uma clara cad\u00eancia de conclus\u00e3o. A m\u00fasica poderia terminar a\u00ed\u2026 mas n\u00e3o termina. Os acordes em si j\u00e1 n\u00e3o s\u00e3o t\u00e3o brilhantes como os primeiros e o que segue diretamente \u00e9 o tema principal, mas agora tratado em modo menor.<\/p>\n<p>Como primeira constata\u00e7\u00e3o pode-se dizer que pausas servem para marcar momentos de transi\u00e7\u00e3o. Elas trazem consigo a possibilidade e abertura para conduzir a situa\u00e7\u00f5es bastante diversas, conectando ambientes por vezes polares. N\u00e3o cabe aqui fazer uma an\u00e1lise minuciosa desta grandiosa obra de Mozart, nem mesmo tentar definir com precis\u00e3o o significado destas pausas, mas vale considerar o seguinte: A \u201cFlauta M\u00e1gica\u201d tem como um de seus motivos centrais o tema do \u201csilenciar\u201d. O grande desafio do her\u00f3i da hist\u00f3ria (Tamino) \u00e9, mesmo nos momentos mais dif\u00edceis, silenciar; para poder alcan\u00e7ar um estado de maior consci\u00eancia e ter o direito de casar-se com a sua amada (Pamina). Deve aprender a respeitar um processo interior. Em outro momento (um tanto c\u00f4mico), um outro personagem (Papageno), recebe um cadeado na boca. O s\u00edmbolo n\u00e3o poderia ser mais expl\u00edcito; est\u00e1 nos dizendo: \u201csilencie e escute neste sil\u00eancio\u201d. Estas s\u00e3o talvez algumas das quest\u00f5es que se poderia investigar neste obra.<\/p>\n<p>Como segundo exemplo temos o in\u00edcio do Contraponto XI obra \u201cA Arte da Fuga\u201d de J. S. Bach.<\/p>\n<p>Exemplo 2<\/p>\n<p>J. S. Bach \u2013 A arte da fuga \u2013 Contraponto XI (trecho)<br \/>\n<a class=\"wpaudio\" href=\"http:\/\/www.marcelopetraglia.com.br\/mp_audio\/ex2_Bach_arte-da-fuga-11.mp3\"><br \/>\nJ. S. Bach \u2013 A arte da fuga \u2013 Contraponto XI<\/a><\/p>\n<p>Aqui ouvimos pausas interrompendo o fluxo das melodias. Neste breve exemplo, dois acontecimento chamam a aten\u00e7\u00e3o:<\/p>\n<p>1) as pausa em cada voz funcionam como uma especie de contra\u00e7\u00e3o, ou um \u201cfreio\u201d ao discurso &#8211; tom, tom, tom, pausa \/ tom, tom, tom, pausa \/ tom, tom, tom, pausa \/ pausa e a resolu\u00e7\u00e3o da tens\u00e3o acumulada por essas contra\u00e7\u00f5es num movimento descendente ao centro de equil\u00edbrio tonal da pe\u00e7a. Vale notar que, apesar das pausas, percebemos claramente o arco da melodia como um todo. Aqui n\u00e3o a ruptura, mas continuidade do fluxo atravessando a pausa e conectando os v\u00e1rio segmentos do tema.<\/p>\n<p>2) Um aspecto curioso \u00e9 que \u00e0 medida que cada um dos instrumentos apresenta o tema, e vai se entrela\u00e7ando aos demais, continuamos a ouvir as pausas mesmo que outros instrumentos estejam soando naquele exato momento. Ouvimos pausas, mas n\u00e3o h\u00e1 de fato sil\u00eancio.<br \/>\n<img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.marcelopetraglia.com.br\/mp_imagem\/bach_arte-fuga_contraponto-11.png\" \/><br \/>\nAqui fica claro que, na m\u00fasica, uma pausa n\u00e3o se caracteriza pelo sil\u00eancio ac\u00fastico (aus\u00eancia de som), mas sim como um espa\u00e7o onde as for\u00e7as tonais atuam para al\u00e9m do tom. Com isso vimos dois outros aspectos das pausas bastante distintos do exemplo anterior.<\/p>\n<p>No pr\u00f3ximo exemplo, o \u201cDan\u00fabio Azul\u201d de Johann Strauss II (algo bem conhecido), ouviremos o evolver de uma valsa, que se torna cada vez mais intensa, at\u00e9 o momento em que o fluxo sonoro \u00e9 interrompido com uma pausa geral da orquestra.<\/p>\n<p>Exemplo 3<\/p>\n<p>J. Strauss II \u2013 Dan\u00fabio Azul (trecho)<\/p>\n<p><a class=\"wpaudio\" href=\"http:\/\/www.marcelopetraglia.com.br\/mp_audio\/ex3_Strauss_danubio.mp3\">J. Strauss II \u2013 Dan\u00fabio Azul<\/a><\/p>\n<p>Creio que seja bastante percept\u00edvel o quanto a intensifica\u00e7\u00e3o que antecede a pausa contribui para seu estado se suspens\u00e3o e expectativa. Mas, no meu entender, o mais significativo neste caso \u00e9 dado pelo que vem depois dela. Ao contr\u00e1rio do exemplo de Mozart, aqui n\u00e3o h\u00e1 mudan\u00e7a de dire\u00e7\u00e3o ou modo; o tema \u00e9 retomado na sua forma inicial e \u201ca vida segue&#8230;\u201d, tudo recome\u00e7a, podendo evoluir novamente. Ouve-se algo conhecido, o que acaba dando \u00e0 esta pausa, apesar da grande expectativa que produziu, a experi\u00eancia de um al\u00edvio da tens\u00e3o, uma respira\u00e7\u00e3o profunda para o retornar a um ambiente confort\u00e1vel.<\/p>\n<p>Neste quarto e \u00faltimo exemplo extra\u00eddo da pe\u00e7a \u201cTabula Rasa\u201d (1977) do compositor estoniano Arvo P\u00e4rt, a pausa se d\u00e1 na passagem entre as duas grandes se\u00e7\u00f5es da pe\u00e7a.<\/p>\n<p>Exemplo 4<\/p>\n<p>Arvo P\u00e4rt \u2013 Tabula Rasa (trecho)<\/p>\n<p><a class=\"wpaudio\" href=\"http:\/\/www.marcelopetraglia.com.br\/mp_audio\/ex4_Part_tabularasa.mp3\">Arvo P\u00e4rt \u2013 Tabula Rasa<\/a><\/p>\n<p>Pode-se dizer que ouvimos aqui uma intensifica\u00e7\u00e3o dram\u00e1tica, algo que quase chega a ser opressor. Ent\u00e3o uma pausa, um vazio que perpetua o estado deixado pelos tons finais. O que segue, no entanto, \u00e9 algo totalmente novo e em certa medida surpreendente. Parece que a somos levados a um outro plano. Gostaria de sugerir que esta pausa tem a caracter\u00edstica de \u201cpausa de transcend\u00eancia\u201d, ou seja, uma pausa, ou um sil\u00eancio, que precisa acontecer, quando algo demanda se conduzido a um outro estado de exist\u00eancia. Aqui ouvimos apenas o momento de transi\u00e7\u00e3o mas, como dito anteriormente, no contexto da pe\u00e7a como um todo o significado desta pausa \u00e9 fortemente aprofundado e ampliado.<\/p>\n<p>Existem naturalmente muitos outros tipos de pausas, igualmente interessantes. Mas espero que o que at\u00e9 aqui foi ouvido e comentado, tenha sido suficiente para indicar como se pode experienciar uma pausa na m\u00fasica: como estado de for\u00e7a, estado an\u00edmico e principalmente como uma pergunta direcionada ao nosso interior.<\/p>\n<p>Gostaria de propor ainda que, dentre outras, pausas podem ser vivenciadas como:<\/p>\n<p>1) um convite a escuta interior (como no exemplo de Mozart)<\/p>\n<p>2) uma interrup\u00e7\u00e3o, uma parada que freia um processo (como no exemplo de Bach);<\/p>\n<p>3) uma suspens\u00e3o, que cria uma expectativa (como no exemplo de J. Strauss);<\/p>\n<p>4) uma restri\u00e7\u00e3o, que impede que algo aconte\u00e7a (talvez o que estamos vivendo nesta pandemia seja algo deste tipo);<\/p>\n<p>6) uma pausa de limiar, que se constitui em portal para que algo totalmente novo possa acontecer (como no nosso \u00faltimo exemplo);<\/p>\n<p>7) momento de invers\u00e3o em um processo c\u00edclico, como na respira\u00e7\u00e3o, o instante em que termina a inspira\u00e7\u00e3o e inicia-se a expira\u00e7\u00e3o e igualmente no sentido inverso. Se notarmos bem sempre h\u00e1 entre estas duas dire\u00e7\u00f5es uma pequena parada, uma esp\u00e9cie de ponto zero no movimento. Este momento \u00e9 na verdade parte integrante e fundamental de todo processo org\u00e2nico, j\u00e1 que tudo que \u00e9 vivo, vive em ciclos de forma pulsante;<\/p>\n<p>8) um descanso (ou pausa de dissolu\u00e7\u00e3o). N\u00e3o ouvimos nenhum exemplo deste tipo, mas pode-se observ\u00e1-la ao final de um processo, quando tudo chega a um repouso. Aqui naturalmente deve-se considerar a dura\u00e7\u00e3o desta pausa. Se ela se perde no vazio (ou se simplesmente nada \u00e9 retomado na sequ\u00eancia), ela deixa de ser uma pausa, passa a ser um novo estado ou alguma outra coisa. Portando a dura\u00e7\u00e3o da pausa, se \u00e9 ela \u00e9 longa, curta ou intermin\u00e1vel na rala\u00e7\u00e3o com seu contexto, \u00e9 algo que afeta sua pr\u00f3pria identidade e significado.<\/p>\n<p>Pensando agora no momento atual e buscando relacion\u00e1-lo o que foi dito, creio que seja poss\u00edvel fazer algumas considera\u00e7\u00f5es, das quais a primeira decorre da pergunta: estamos numa pausa? Para muitas pessoas, pode-se dizer que sim. Elas tiveram que interromper o fluxo das coisas que vinham fazendo, que para elas era vital e importante, h\u00e1 um claro impedimento ou suspens\u00e3o. Outras tiveram que se adaptar a maneiras e condi\u00e7\u00f5es de vida muito anti naturais. Para algumas ainda poder\u00edamos dizer \u201ca m\u00fasica mudou\u201d, mas n\u00e3o h\u00e1 pausa. Talvez tenha ficado at\u00e9 mais acelerada, densa e complexa. Vejo muitas pessoas trabalhando mais do que antes, mais envolvidas e at\u00e9 sobrecarregadas com quest\u00f5es profissionais e pessoais. Isso se mostra como algo bem distante do que pode-se entender como sendo uma pausa; a conex\u00e3o com o mundo externo, com o mundo das coisas continua muito forte. E como foi sugerido, a pausa \u00e9 o momento onde o aquilo que n\u00e3o \u00e9 tang\u00edvel materialmente se manifesta; onde igualmente tudo se volta para o interior (de si mesmo e das coisas). Com certeza, muitas m\u00e1quinas pararam e, neste caso poder\u00edamos caracterizar tal pausa (do ponto de vista das m\u00e1quinas) como &#8220;paralisa\u00e7\u00e3o\u201d ou de \u201cestagna\u00e7\u00e3o\u201d, pois de fato h\u00e1 um vazio de for\u00e7a ou qualquer outra qualidade neste acontecimento. Percebe-se, portanto, que o momento combina diversos tipos de experi\u00eancias, embora seja ineg\u00e1vel que, de um ponto de vista funcional, a grande maioria das pessoas foi isolada numa certa situa\u00e7\u00e3o (mais ou menos ativa) da qual \u00e9 dif\u00edcil se libertar. Vem \u00e0 mente a lembran\u00e7a de uma brincadeira de crian\u00e7a onde todos corriam livremente at\u00e9 que o pegador gritava \u201cmandrake!\u201d, e todos tinham que ficar parados, congelados na posi\u00e7\u00e3o em que estavam. O pegador ent\u00e3o podia dar at\u00e9 tr\u00eas passos para alcan\u00e7ar e tocar em algu\u00e9m (que se tornaria o pr\u00f3ximo pegador). Caso n\u00e3o conseguisse, dizia \u201cmandrake licen\u00e7a\u201d e todos voltavam a andar e correr. Tomando esta brincadeira como met\u00e1fora, pode-se perguntar: onde cada um parou nesta pandemia (se \u00e9 que parou)? Como este evento mundial atingiu cada um de n\u00f3s? Para alguns talvez seja de fato uma pausa e esta com sua qualidade espec\u00edfica. Para outras talvez n\u00e3o.<\/p>\n<p>Cabe portanto agora uma pergunta e reflex\u00e3o final: qual o significado que este momento tem e ter\u00e1 para cada um de n\u00f3s? Lembrando do que foi dito anteriormente, no contexto de uma pausa, seu significado \u00e9 dado pelo que veio antes, mas tamb\u00e9m pelo que vem depois. \u00c9 certo que quando \u201ca m\u00fasica voltar\u201d ir\u00e1 ressignificar este momento. Neste sentido, como estamos nos preparando para este depois? Ser\u00e1 que estou esperando algo como a pausa do \u201cDan\u00fabio Azul\u201d? Que fortemente suspende a a\u00e7\u00e3o, mas depois tudo segue como se nada tivesse acontecido? Esta pausa conduzir\u00e1 a algo como na pe\u00e7a de Arvo P\u00e4rt, onde o retorno da m\u00fasica traz algo totalmente inesperado? Fica ent\u00e3o a possibilidade de cada um projetar este futuro; escutar neste futuro. Para que a sua pausa possa posP \u2013 A qualidade da pausa est\u00e1 relacionada com a qualidade da escuta, da m\u00fasica e da vida?teriormente ser percebida como algo bom. Que apesar do sofrimento que muitos est\u00e3o sentindo, esta pausa tenha valido a pena. E isso ir\u00e1 depender n\u00e3o s\u00f3 do que vivia antes e da pausa em si, com todas as suas tens\u00f5es, mas do que vir\u00e1 depois. Igualmente depen\u00a0\u00a0der\u00e1 de o quanto se aproveitou este \u201csil\u00eancio\u201d para uma reestrutura\u00e7\u00e3o interna que conduza a um estado mais positivo no futuro. Assim convido cada um a fazer uma reflex\u00e3o sobre sua experi\u00eancia pessoal neste momento, sugerindo como est\u00edmulo as seguintes perguntas:<\/p>\n<ul>\n<li>Quanto e em que \u00e2mbito este momento est\u00e1 sendo uma pausa?<\/li>\n<li>Com que qualidade ela se apresenta?<\/li>\n<li>Como quero aproveitar este momento para que esta pausa se converta em algo significativamente positivo no futuro?<\/li>\n<\/ul>\n<p>No mais, agrade\u00e7o a aten\u00e7\u00e3o preciosa de todos, a oportunidade de compartilhar estes pensamentos que relacionam a m\u00fasica com a vida, visando, mesmo que de um modo tateante e um tanto especulativo, dar um passo na transforma\u00e7\u00e3o de nossa consci\u00eancia. Agrade\u00e7o igualmente o apoio dos organizadores deste evento e desejo de cora\u00e7\u00e3o que todos fiquem bem.<\/p>\n<p><strong>Anexo<\/strong><\/p>\n<p>Complementando este texto, seguem algumas das perguntas e respostas feitas nas referidas <em>lives <\/em>que, de forma mais ou menos direta, se conectam com o tema exposto.<\/p>\n<p><strong>Perguntas &amp; Respostas<\/strong><\/p>\n<p>P &#8211; Poder-se-ia dizer que existe uma \u201ceco est\u00e9tica\u201d na m\u00fasica?<\/p>\n<p>R &#8211; Confesso n\u00e3o tenho clareza sobre este conceito (eco est\u00e9tica), mas assumo que ele possa ser entendido em dois sentidos: 1) Pode-se falar em uma aprecia\u00e7\u00e3o est\u00e9tica (aprecia\u00e7\u00e3o imediata e sens\u00edvel) do \u201ceco\u201d, da reverbera\u00e7\u00e3o, das for\u00e7as da m\u00fasica para al\u00e9m do dado ac\u00fastico. Isso seria uma carater\u00edstica da pausa musical e portanto, sim, algo pertencente ao fen\u00f4meno da m\u00fasica como um todo. 2) Uma outra considera\u00e7\u00e3o parte do reconhecimento de que m\u00fasica \u00e9 um fator ambiental. Musica vive no espa\u00e7o a nossa volta e como todo fator ambiental, \u00e9 pass\u00edvel de uma experi\u00eancia est\u00e9tica. Tamb\u00e9m como todo fator ambiental, requer cuidado para preservar suas potencialidades. Relacio&lt;em&gt;&lt;\/em&gt;&lt;\/em&gt;nando isso com a quest\u00e3o da pausa, olhando para a quest\u00e3o das fronteiras entre o som e os sil\u00eancios na m\u00fasica, \u00e9 interessante observar dois momentos fundamentais para a escuta: antes de se iniciar uma pe\u00e7a e o momento final quando a sonoridade da m\u00fasica cessa. Normalmente se espera que haja um certo sil\u00eancio emoldurando a pe\u00e7a musical. Porqu\u00ea? Uma poss\u00edvel resposta seria: o sil\u00eancio inicial, se preenche de possibilidades, como um campo gr\u00e1vido de for\u00e7as. Ele abre e sintoniza o ouvido para o mundo pr\u00f3pri\u00a0o da m\u00fasica; um mundo de for\u00e7as tonais. J\u00e1 momento logo ap\u00f3s o final da pe\u00e7a, oferece a s\u00edntese da \u201cbiografia\u201d tonal que acabamos de ouvir (seu \u201ceco\u201d), em seu estado puramente imaterial; de certo modo seu significado essencial, que engloba todos os momentos vividos no decorrer da escuta da obra. Bons regentes, t\u00eam a habilidade de reger o p\u00fablico, sabem como cultivar e sustentar estes dois momentos. D\u00e3o assim a eles um car\u00e1ter de pausa, ativando e preservando as for\u00e7as musicais inaud\u00edveis do ponto de vista ac\u00fastico. Neste sentido, uma a\u00e7\u00e3o \u201cecol\u00f3gica\u201d cuidando do todo do sistema em suas diversas dimens\u00f5es.<\/p>\n<p>P \u2013 Como se denominam as for\u00e7as presentes na m\u00fasica?<\/p>\n<p>R \u2013 Podemos cham\u00e1-las de \u201cqualidades din\u00e2micas dos tons\u201d, bem como \u201cqualidades din\u00e2micas dos ritmos e da m\u00e9trica\u201d (ver ZUCKERKANDL, 1976, p 97-139; ZUCKERKANDL, 1973, p 151-200). Quando falamos de for\u00e7as, queremos indicar uma vontade nos tons, tons que querem algo, que t\u00eam uma certa incompletude e por isso almejam mover-se em dire\u00e7\u00e3o a um estado de maior equil\u00edbrio. O exemplo mais cl\u00e1ssico \u00e9 quando se ouve a escala diat\u00f4nica ascendente, sem, no entanto, alcan\u00e7ar a 8<sup>va<\/sup> do tom inicial:<br \/>\n<img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft\" src=\"https:\/\/www.marcelopetraglia.com.br\/mp_imagem\/diatonica_incompleta.png\" alt=\"\" width=\"279\" height=\"51\" \/><\/p>\n<p>Vivencia-se a\u00ed claramente a forte expectativa e a incompletude da situa\u00e7\u00e3o que aguarda o tom final. Incont\u00e1veis exemplos, evolvendo outros gestos mel\u00f3dicos ou rela\u00e7\u00f5es de acordes poderiam ser apresentados; o que nos levaria a perceber como os tons configuram um \u201ccampo de vontades\u201d, impulsionando o movimento musical ou mesmo indicando o desejo de ficar em si mesmo. Importante notar que se trata de uma qualidade \u201cdin\u00e2mica\u201d m\u00f3vel, pois n\u00e3o \u00e9 uma qualidade de um tom espec\u00edfico (do R\u00e9, do Sol, do Si bemol, etc.), mas \u00e9 uma qualidade que se manifesta no tom num dado contexto musical. Assim, por exemplo, um L\u00e1 pode ter uma qualidade de centro de equil\u00edbrio num dado momento de uma passagem mel\u00f3dica e ter outra qualidade (desequil\u00edbrio) em outro momento. \u00c0s vezes a simples mudan\u00e7a dos tons que antecedem, sucedem ou soam simult\u00e2neos a este tom, podem levar a uma altera\u00e7\u00e3o na sua qualidade din\u00e2mica. O mesmo ocorre em rela\u00e7\u00e3o aos ritmos e estruturas m\u00e9tricas (compassos). Cada um dos tempos e contratempos de um compasso t\u00eam sua qualidade de for\u00e7a caracter\u00edstica e vai tingir com ela os tons que recebe. A escuta musical, em \u00faltima an\u00e1lise, \u00e9 uma escuta de for\u00e7as.<\/p>\n<p>P \u2013 Pode comentar mais sobre a diferen\u00e7a entre a pausa e o sil\u00eancio?<\/p>\n<p>R \u2013 Apesar de uma aparente sobreposi\u00e7\u00e3o conceitual, pausa e sil\u00eancio t\u00eam caracter\u00edsticas diferentes. Pausa na m\u00fasica n\u00e3o necessariamente corresponde ao sil\u00eancio do ponto de vista ac\u00fastico. Sabe-se que, sil\u00eancio absoluto, do ponto de vista ac\u00fastico, \u00e9 algo inexistente para quem tem um ouvido mais ou menos saud\u00e1vel. Mesmo em uma c\u00e2mara anecoica<a href=\"#sdfootnote1sym\"><sup>1<\/sup><\/a> continua-se ouvindo algo. O que se considera \u201csil\u00eancio\u201d, \u00e9 em geral um n\u00edvel baixo de ruido ou informa\u00e7\u00e3o ac\u00fastica ambiental de qualquer tipo. No caso da m\u00fasica, por exemplo numa apresenta\u00e7\u00e3o ao ar livre, apesar dos sons ambientes, a m\u00fasica faz pausas; t\u00e3o verdadeiras enquanto pausas musicais quanto quaisquer outras ouvidas numa sala de concerto. O que faz um pausa na m\u00fasica \u00e9 a reverbera\u00e7\u00e3o das for\u00e7as ritmico-tonais para al\u00e9m do som, ouvidas num outro plano da escuta. Fica aqui claro que a m\u00fasica e o ambiente ac\u00fastico pertencem a diferentes ordens da exist\u00eancia. Um outro ponto a considerar \u00e9 que pausas s\u00e3o eventos moment\u00e2neos, inseridos num contexto, e ganham seu significado a partir da rela\u00e7\u00e3o que estabelecem com este contexto. J\u00e1 o sil\u00eancio pode ser um atributo mais permanente de um lugar: um deserto, o alto de uma montanha (sem vento), um templo, s\u00e3o normalmente lugares de sil\u00eancio.<\/p>\n<p><a href=\"#sdfootnote1anc\">1<\/a>C\u00e2maras com isolamento ac\u00fastico e eletromagn\u00e9tico m\u00e1ximo.<\/p>\n<p>P &#8211; O vazio seria tamb\u00e9m uma pausa?<\/p>\n<p>R \u2013 Ao observar uma pintura tradicional chinesa, como por exemplo, de uma paisagem enevoada, representada com algumas manchas e tra\u00e7os, onde uma parte consider\u00e1vel da folha fica em branco, podemos ser tentados a chamar este espa\u00e7o n\u00e3o pintado de \u201cvazio\u201d. Mas curiosamente, para o observador, este espa\u00e7o em branco da folha, em di\u00e1logo com os tra\u00e7os e manchas, \u00e9 tudo menos vazio. Sim, h\u00e1 um vazio de tinta, mas ele \u00e9 potente enquanto for\u00e7a e significado. Ele foi potencializado por aqueles poucos tra\u00e7os e acaba expressando algo tanto ou mais significativo do que o que foi pintado com tinta. Assim pode-se pensar da mesma forma a rela\u00e7\u00e3o da pausa na m\u00fasica; o sil\u00eancio ac\u00fastico de uma pausa musical torna-se um evento de alto significado. H\u00e1 sem d\u00favida casos em outros contextos da vida, onde se pode falar em um vazio ou aus\u00eancia de significado. Mas isso, no meu entender, j\u00e1 n\u00e3o teria um car\u00e1ter de pausa musical; seria uma outra coisa.<\/p>\n<p>P &#8211; Assim como nos intervalos musicais, uma pausa pode ser considerada mais consonante ou dissonante?<\/p>\n<p>R \u2013 Se quisermos fazer esse tipo de rela\u00e7\u00e3o, sim, creio que \u00e9 poss\u00edvel reconhecer uma determinada pausa como altamente tensa (dissonante). J\u00e1 uma pausa pode ter a qualidade de algo tranquilo, ou \u201cconsonante\u201d no sentido de que, nela, as tens\u00f5es s\u00e3o resolvidas e chega-se a um estado concord\u00e2ncia, mesmo que seja apenas um desca\u00e7o.<\/p>\n<p>P &#8211; Como se pode entender as pausas no motivo inicial da 5<sup><u>a<\/u><\/sup> sinfonia de Beethoven?<\/p>\n<p>R \u2013 Para falar da qualidade destas pausas acho importante que se considere a interpreta\u00e7\u00e3o especifica da obra. H\u00e1 vers\u00f5es onde praticamente se atropela esta pausa, j\u00e1 outras onde ela \u00e9 acentuadamente valorizada (e muitas outras variantes). Assumindo que o \u00faltimo est\u00e1gio na cria\u00e7\u00e3o de uma obra musical \u00e9 sua interpreta\u00e7\u00e3o \u2013 e no caso de pe\u00e7as orquestrais isso fica muito a cargo do regente \u2013 vai depender da leitura especifica que o regente faz da obra, o significado que cada pausa ter\u00e1. Por isso vale escutar diferentes execu\u00e7\u00f5es. Para al\u00e9m destas varia\u00e7\u00f5es, trata-se sem d\u00favida de uma pausa curta. Creio que se pode genericamente entend\u00ea-la pausa como uma \u201cpausa de reten\u00e7\u00e3o\u201d, pois ela interrompe o fluxo de uma mesma ideia, n\u00e3o h\u00e1 aqui uma mudan\u00e7a de estado ap\u00f3s sua ocorr\u00eancia.<\/p>\n<p>P \u2013 Como sensibilizar as crian\u00e7as para o significado das pausas?<\/p>\n<p>R \u2013 Pensando em termos de educa\u00e7\u00e3o musical, cada vez que cantamos ou tocamos algo com as crian\u00e7as, h\u00e1 tr\u00eas momentos importantes que podem ser observados: antes de iniciar a m\u00fasica, as pausas que ocorrem eventualmente durante a pe\u00e7a e ap\u00f3s seu t\u00e9rmino. Pode-se aproveitar estes momentos para cultivar uma atitude de escuta ativa para as for\u00e7as musicais manifestas no sil\u00eancio. Estamos, por exemplo, diante do grupo de alunos e vamos iniciar uma can\u00e7\u00e3o. Damos o tom e segue-se um momento de sil\u00eancio. \u00c9 neste momento que cada um se conecta com o fluxo daquilo que quer soar. Neste sil\u00eancio a escuta est\u00e1 direcionada ao futuro e se converte em guia da voz (a voz entregue a si mesma n\u00e3o sabe para onde ir). Respeitar e cultivar este momento de sil\u00eancio tornando-o um h\u00e1bito, acredito que pode ajudar a desenvolver esta dimens\u00e3o da escuta. Algo an\u00e1logo pode acontecer ao t\u00e9rmino da can\u00e7\u00e3o, preservando o ecoar das for\u00e7as no sil\u00eancio ac\u00fastico que se estabelece. As pausas que ocorrem no decorrer da pe\u00e7a merecem igualmente este tipo de aten\u00e7\u00e3o. Tudo isso, em grande parte \u00e9 conduzido pelo professor ou quem estiver conduzindo as crian\u00e7as. Na medida em que esta viv\u00eancia qualitativa das pausas for uma realidade para ele ou ela, as crian\u00e7as intuitivamente, pela pr\u00e1tica e imita\u00e7\u00e3o, tender\u00e3o a desenvolver esta capacidade.<\/p>\n<p>P &#8211; A qualidade da pausa est\u00e1 relacionada com a qualidade da escuta, da m\u00fasica e da vida?<\/p>\n<p>R \u2013 Entendo que a qualidade da escuta est\u00e1 muito relacionada \u00e0 intensidade da aten\u00e7\u00e3o na escuta. A capacidade de dar a aten\u00e7\u00e3o devida \u00e0 informa\u00e7\u00e3o que chega por meio da audi\u00e7\u00e3o. Isso se aplica \u00e0 musica, com certeza, mas tamb\u00e9m \u00e0 muitas outras situa\u00e7\u00f5es: numa conversa, na escuta das pr\u00f3prias vozes e pensamentos, na escuta do ambiente\u2026 Para isso \u00e9 preciso abrir um espa\u00e7o e disponibilizar uma boa dose de energia para tornar-se sens\u00edvel ao que vem ao nosso encontro. Qualidade da escuta estaria ent\u00e3o dependente da capacidade de doar aten\u00e7\u00e3o a algo, formando com ela uma \u201ctela\u201d onde os fen\u00f4menos ir\u00e3o se imprimir. Se minha aten\u00e7\u00e3o \u00e9 direcionada a algum outro evento na consci\u00eancia (uma dor, uma imagem ou qualquer outra coisa), perco o foco do objeto primeiro, da m\u00fasica ou pessoa que est\u00e1 \u00e0 minha frente. Se me permitem, quero dizer que estou cada vez mais convencido de que temos uma cota limitada de aten\u00e7\u00e3o para dar nesta vida. A aten\u00e7\u00e3o de dou a algo ou a algu\u00e9m, n\u00e3o ser\u00e1 dada a nenhum outro. Mesmo pessoas que fazem muitas coisas ao mesmo tempo, creio que o fazem porque conseguem mudar o foco muito r\u00e1pido e n\u00e3o porque t\u00eam diferentes focos de aten\u00e7\u00e3o ao mesmo tempo. A aten\u00e7\u00e3o est\u00e1 a cada momento apenas em um lugar. Neste sentido ela seja talvez a coisa mais preciosa que temos.<\/p>\n<p>P &#8211; Pausa \u00e9 a\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>R \u2013 Sim! Mas \u00e9 uma a\u00e7\u00e3o interna. O m\u00fasico na pausa \u00e9 extremamente ativo (pausa n\u00e3o \u00e9 o descanso do m\u00fasico). A pausa \u00e9 plena de for\u00e7as e, seja como ouvinte seja como executante, ao perceb\u00ea-la nos engajamos nesta atividade. O p\u00fablico percebe a atividade do m\u00fasico nas pausas da m\u00fasica. O bom m\u00fasico tem a capacidade n\u00e3o s\u00f3 de conduzir os tons, mas tamb\u00e9m de conduzir e preencher os \u201csil\u00eancios\u201d com sua atividade interior. A atividade \u00e9 constaPoder-se-ia dizer que existe uma \u201ceco est\u00e9tica\u201d na m\u00fasica?nte, apenas que em um momento est\u00e1 fisicamente manifesta e aud\u00edvel, em outro momento est\u00e1 em outro plano, mas igualmente aud\u00edvel.<\/p>\n<p><strong>Grava\u00e7\u00f5es das <\/strong><em><strong>lives<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Dispon\u00edveis em:<\/p>\n<p>EcoSocial &#8211; <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=kzz4vj-TgOY\">https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=kzz4vj-TgOY<\/a><\/p>\n<p>Faculdade Rudolf Steiner &#8211; <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=5HQrMBFSaLI\">https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=5HQrMBFSaLI<\/a><\/p>\n<p><strong>Refer\u00eancias bibliogr\u00e1ficas<\/strong><\/p>\n<p>ANTUNES, J. O sil\u00eancio. Opus (Revista da Associa\u00e7\u00e3o Nacional de Pesquisa e P\u00f3s-GraPoder-se-ia dizer que existe uma \u201ceco est\u00e9tica\u201d na m\u00fasica?dua\u00e7\u00e3o em M\u00fasica \u2013 ANPPOM), v.6, n.6, 1999.<\/p>\n<p>BAARS, B. J. In the Theater of Consciousness: Global Workspace Theory, A Rigorous Scientific Theory of Consciousness. Journal of Consciousness Studies 4, No. 4, 1997, pp. 292-309.<\/p>\n<p>PETER, C. Zum Ph\u00e4nomen der pause und der wiederholung in der musik. Stuttgart: Bund der Frein Waldorfschulen, 1986.<\/p>\n<p>PETRAGLIA, M. S. A m\u00fasica e sua rela\u00e7\u00e3o com o ser humano. Botucatu: OuvirAtivo, 2010.<\/p>\n<p>ZUCKERKANDL, V. The Sense of Music . Princeton: Princeton University Press, 1967<\/p>\n<p>ZUCKERKANDL, V. Sound and symbol . Princeton: Princeton University Press, 1973<\/p>\n<p>ZUCKERKANDL, V. Man the musician . Princeton: Princeton University Press, 1976<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Este texto se baseia na transcri\u00e7\u00e3o de duas <em>lives<\/em> realizadas nos dias 8 e 23 de junho 2020, em meio a pandemia do Covid-19, organizadas respectivamente pelo EcoSocial e pela Faculdade Rudolf Steiner &#8211; S\u00e3o Paulo \u2013 Brasil<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_uag_custom_page_level_css":"","advgb_blocks_editor_width":"","advgb_blocks_columns_visual_guide":"","site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"set","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"pgc_sgb_lightbox_settings":"","footnotes":""},"categories":[5,8],"tags":[13],"class_list":["post-1013","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-artigos","category-home","tag-ini"],"author_meta":{"display_name":"Marcelo S.Petraglia","author_link":"https:\/\/marcelopetraglia.com.br\/?author=2"},"featured_img":null,"uagb_featured_image_src":{"full":false,"thumbnail":false,"medium":false,"medium_large":false,"large":false,"1536x1536":false,"2048x2048":false,"lifterlms_certificate_background":false,"llms_notification_icon":false},"uagb_author_info":{"display_name":"Marcelo S.Petraglia","author_link":"https:\/\/marcelopetraglia.com.br\/?author=2"},"uagb_comment_info":0,"uagb_excerpt":"Este texto se baseia na transcri\u00e7\u00e3o de duas lives realizadas nos dias 8 e 23 de junho 2020, em meio a pandemia do Covid-19, organizadas respectivamente pelo EcoSocial e pela Faculdade Rudolf Steiner - 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